A relação entre religião e mídia nunca foi tão intensa quanto nos dias atuais. No Brasil, um dos exemplos mais marcantes dessa transformação é o percurso das Assembleias de Deus, que passaram de uma postura resistente aos meios de comunicação para se tornarem protagonistas no cenário midiático religioso.
Um estudo publicado na revista acadêmica Questões Transversais analisa justamente esse processo, chamado de “midiatização”, mostrando como a igreja foi se adaptando — nem sempre sem conflitos — às novas formas de comunicação ao longo do século XX e início do XXI.
O começo: a força da palavra impressa
Desde suas primeiras décadas no Brasil, ainda nos anos 1910, as Assembleias de Deus já utilizavam a imprensa como principal ferramenta de evangelização. Jornais como Boa Semente e, posteriormente, o tradicional Mensageiro da Paz, ajudaram a consolidar a identidade doutrinária da igreja e a ampliar seu alcance.
Na época, o acesso à leitura era limitado, especialmente entre as camadas mais pobres. Ainda assim, a igreja incentivava seus membros a lerem a Bíblia e publicações religiosas, o que acabou tendo também um impacto social importante.
Rádio: resistência e adaptação
Se a imprensa foi bem aceita desde o início, o mesmo não aconteceu com o rádio. Nas décadas de 1930 e 1940, líderes da igreja demonstravam preocupação com o uso desse meio, temendo influências externas e a chamada “secularização”.
Apesar disso, a partir dos anos 1950, o rádio começou a ser utilizado para transmissões de cultos e programas evangelísticos. Um dos mais marcantes foi o “Voz das Assembleias de Deus”, que se tornou referência nacional e ajudou a popularizar a mensagem pentecostal.
Televisão: da proibição ao protagonismo
A chegada da televisão ao Brasil intensificou ainda mais os debates internos. Em 1957, a liderança das Assembleias de Deus decidiu proibir seus fiéis de possuírem aparelhos de TV, alegando riscos espirituais.
Essa posição se manteve por décadas, com reforços em reuniões e convenções ao longo dos anos 60 e 70. Mesmo assim, na prática, a realidade já começava a mudar: alguns líderes passaram a utilizar a televisão para evangelização, ainda que de forma discreta.
A virada começou nos anos 1980, quando igrejas passaram a investir de forma mais direta em programas televisivos. A partir daí, o que antes era proibido se tornou uma ferramenta estratégica.
Anos 90 e 2000: igrejas na mídia e no poder
Na década de 1990, o movimento ganhou força com a compra de emissoras de rádio e televisão por grupos ligados às Assembleias de Deus. A presença na mídia deixou de ser apenas evangelística e passou a ter também influência cultural, econômica e política.
Já nos anos 2000, a postura oficial mudou: em vez de proibir o uso da televisão, a orientação passou a ser o uso consciente dos meios de comunicação.
Muito além da religião
Hoje, a discussão já não gira mais em torno de “usar ou não usar” a mídia, mas sim de como utilizá-la. As disputas internas, inclusive, passaram a envolver poder, influência política e espaço nos meios de comunicação.
O estudo aponta que a midiatização transformou não apenas a forma de evangelizar, mas também o próprio modo de viver a fé. Com a internet e as redes sociais, o fiel já não depende mais apenas do templo: ele escolhe o que assistir, quando e como se conectar com sua religião.
Um novo tempo para a fé
O caso das Assembleias de Deus mostra como a religião acompanha — e também influencia — as mudanças da sociedade. O que antes era visto como ameaça hoje é ferramenta essencial.
No fim das contas, a fé continua a mesma, mas a forma de comunicá-la mudou completamente.